Estádio Joaquim Calmon é demolido e dará lugar a hipermercado em Linhares

Palco de grandes conquistas linharenses sai de cena e com isso, o município do Norte do Espírito Santo fica sem ter um estádio em condições para partidas de futebol profissional

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Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Grande palco de conquistas do povo linharense e principal praça esportiva da região, o Estádio Joaquim Calmon, localizado no bairro Shell, em Linhares, e que tinha capacidade para cerca de 3 mil pessoas, está sendo demolido para a construção de um hipermercado. O valor da venda gira em torno de 20 milhões, sendo 16 milhões divididos entre os 12 herdeiros de Joaquim Calmon, com mais 4 milhões de impostos.

No momento já houve a demolição das arquibancadas (assista no vídeo abaixo). A previsão passada é de começarem as obras efetivamente nos próximos dias e a conclusão acontecer em outubro do ano que vem. A reportagem do GloboEsporte.com tentou entrar em contato com a família Calmon para comentar o assunto, mas até o fechamento desta reportagem, Sérgio Calmon, que representou a família no processo, não atendeu às ligações.

Craques do passado lamentam o fim do estádio

O ex-zagueiro Diego Martins, campeão capixaba e autor do gol do título do Linhares em 2007, exprimiu o sentimento de todos os linharenses com a demolição do estádio.

– É um fato triste, lamentável, principalmente pra mim que tenho grandes recordações no estádio. Pra nós jogadores, que cansamos de ver o Joaquim Calmon cheio em jogos decisivos, é muito triste. O torcedor de Linhares é apaixonado por futebol, mas sabemos que o futebol capixaba passa por uma grande crise – lamentou Diego Martins.

Já Hiran, goleiro gigante na história linharense, campeão capixaba em 1993 e peça central da ótima campanha na Copa do Brasil de 1994, se mostrou conformado com a lacuna deixada pela demolição do estádio e lamentou o fato de um time da cidade ter que ir pra outro município para poder jogar.

– Primeiro a gente tem que aceitar porque o estádio era uma propriedade particular, onde a família Calmon tomou conta, cercou, como era direito deles administrar o local. Era um lugar que foi cedido pro pessoal jogar os campeonatos. A gente só fica triste porque foi um lugar que deu tantas glórias à nossa equipe dos Linhares, tantas alegrias aos torcedores. Mais um estádio em Linhares sendo demolido e o time tendo que ir jogar em outra cidade, acho que é uma vergonha pra cidade de Linhares. É um estádio particular e só falam nele quando chega campanha, para se elegerem. Só prometem várias coisas, mas nunca sai do papel – afirmou Hiran.

Imprensa linharense fica órfã

O radialista Jota Nunes, que é narrador da Rádio Gazeta FM de Linhares e também é comentarista de esportes da TV Gazeta Norte, já transmitiu incontáveis jogos do time do Linhares no Joaquim Calmon. De acordo com o profissional, a imprensa esportiva do município agora fica órfã com a demolição do estádio.

O tom crítico nas palavras de Jota Nunes demonstra a indignação de alguém que sempre trabalhou em prol de um futebol capixaba forte, mas que hoje em dia se mostra descrente com o futuro.

– O futebol do estado está entregue a pessoas que não estão nem aí, que não sabem administrar, que só querem se projetar politicamente. Estão apagando tudo o que foi escrito lá atrás por Fontana, por Giovani e estão jogando na lata do lixo. Uma cidade com cinco títulos estaduais e não ter estádio mais, não dá pra entender. O futebol do interior está acabando e se acabar o da Grande Vitória, o nosso futebol vai acabar. A gente não vê futuro – disse Jota Nunes.
Quem foi Joaquim Calmon?

O estádio tem esse nome em homenagem ao ex-prefeito de Linhares, Joaquim Calmon, que dedicou vários anos de sua vida ao antigo América Futebol Clube (que em 1991 tentou se fundir com o Industrial para o surgimento do também extinto Linhares Esporte Clube). Presidente do time na década de 1950, Joaquim Calmon foi responsável por encontrar o terreno onde foi construído o estádio e também por conseguir o dinheiro necessário para que as obras fossem iniciadas.

O político, que também trabalhava com bovinos, contudo, só passou a dar nome à casa da Coruja Azul em 1952, quando uma importante reforma do estádio foi realizada. Após a morte de Joaquim Calmon, seu filho Sérgio Calmon assumiu o controle do estádio, que é conhecido como “Estádio do América”. E o neto de Joaquim Calmon, Roberto Calmon, foi jogador profissional e teve uma passagem como treinador do Linhares, em 2016.

Último jogo no estádio foi emblemático

Parece até mentira, mas a última partida de futebol profissional que aconteceu no Joaquim Calmon foi num dia 1º de abril, em 2017. Na ocasião, o Linhares empatou com o Tupy-ES em 0 a 0, e acabou rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Capixaba, com uma rodada de antecedência para o fim da 1ª fase. Fato emblemático, por também ter sido a última partida da Coruja Azul no estádio.

Em 1993, Linhares levantou a taça no Joaquim Calmon

O único título com o Linhares “levantando a taça” no Joaquim Calmon foi no longínquo ano de 1993. Nos títulos que vieram depois deste, ou a partida decisiva acontecia na casa do adversário ou os jogos foram no Guilhermão (antigo campo do Industrial), também em Linhares.

No início da década de 1990, o Linhares possuía um bom time, com atletas do quilate de Tinco, Hiran e Arildo Borges, além de Jorginho Namorador como treinador. E naquela decisão de 1993 contra o Aracruz, o Linhares jogava pela igualdade na soma dos resultados. Houveram dois empates (1 a 1 no Estádio do Bambu; e 0 a 0 no Joaquim Calmon).

E um ano depois, em 1994, o Linhares fez a melhor campanha de um time capixaba na Copa do Brasil, chegando às semifinais diante do Ceará, e no caminho tendo eliminado o forte Fluminense. O goleiro Hiran relembrou as grandes glórias proporcionadas aos torcedores no hoje “finado” Estádio Joaquim Calmon, além de pedir ao poder público que resolva o problema da falta de um estádio municipal em Linhares.

– A gente fica chateado porque foi um local onde a torcida linharense vibrou muito, tanto na época da Copa do Brasil, ou no título do Capixabão de 1993. Era campo lotado todo domingo e quando chegava uma hora da tarde não tinha mais ingressos. Como jogador a gente fica triste, porque não dá pra formar time em Linhares porque não tem campo pra jogar. Mas é uma coisa que tem que ser pensada daqui pra frente. As autoridades linharenses tem que ter um pingo de respeito com a torcida que o Linhares teve e tem, e fazer um estádio, já que agora ficamos sem estádio – disse Hiran.

Último título da cidade foi em 2007

O último título profissional da cidade de Linhares foi o Capixabão de 2007, quando a Coruja Azul abateu o Jaguaré. O título veio com uma vitória por 1 a 0, no Joaquim Calmon, e um empate em 0 a 0, no Estádio Conilon. O autor do gol do título foi o ex-zagueiro Diego Martins, que na época atuava como volante.

Neste jogo onde o Linhares venceu o Jaguaré, a equipe comandada pelo técnico Antônio Carlos Roy entrou em campo com: Raul, Jonatan (Serginho), Márcio, Abílio e Fabiano; Diego, Índio, Adriano e Guido (Adeílson Pelé); Rodrigo Calixto e André Biquinho (Rafael Zaró). Na época atuando como volante, o agora ex-zagueiro Diego Martins relembrou os últimos momentos de alegria seus e do torcedor linharense.

– Em 2007 eu fiz o meu primeiro gol como profissional, que foi o gol do título contra o Jaguaré (o 2º jogo terminou em 0 a 0, no Conilon). Foi um momento único, gratificante demais, porque foi o meu primeiro e único título capixaba, além de ser o último título da cidade de Linhares. Eu nunca tinha vivenciado isso e sendo o protagonista desse título, me marcou muito. Lembro de todos os momentos dos jogos, duas grandes equipes e duas torcidas fazendo uma grande festa. Vai ficar marcado para sempre em minha vida – finaliza Diego Martins.

Linhares sem estádio para futebol profissional

Em 2003, o antigo estádio Guilherme Augusto de Carvalho (Guilhermão) também havia sido vendido para pagar dívidas trabalhistas e demolido. Em seu lugar foi construído um hipermercado. Antes, em 1998, o extinto Linhares EC conquistou o último dos seus quatro títulos de campeão capixaba naquele estádio, ao vencer o Vitória-ES por 2 a 0. Agora com a saída de cena do Joaquim Calmon, o município de Linhares fica sem ter um praça esportiva em condições de receber partidas profissionais de futebol.

Globo Esporte

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